quarta-feira, 6 de outubro de 2010

NEM aborto, NEM Marina são importantes para o segundo turno

Passada a ressaca eleitoral (em SP, o campo progressista deixou de ganhar uma cadeira no Senado, perdeu o Governo e ainda assistiu Dilma ir para o segundo turno - pra não falar na maioria absoluta na Assembleia que Alckmin vai ter...), que venha o segundo turno.

E parece que regredimos 30 anos. Nesta mesma data, mas em 1979, acontecia passeata de 50 mil em Paris em defesa da descriminalização do aborto. Aqui no Brasil, em 2010, fica essa histeria dos boatos anti-Dilma no primeiro turno (engraçado que foi o Serra o único candidato que LEGALIZOU o aborto no Brasil, quando era ministro da Saúde em 1998) e todo mundo jurando que esse será O Grande Tema do segundo.

Bom, não vai ser. E eu explico por quê.

A boataria anti-aborto foi deflagrada por setores religiosos no finalzinho do primeiro turno e fez um monte de gente desesperada desistir de votar em Dilma. Só que esses votos não foram pra Serra. Foram pra Marina, uma candidata assumidamente evangélica, com um perfil, religiosamente falando, conservador. Porque os votos não foram pra Serra? Porque essas pessoas, religiosamente conservadoras, já não confiavam no Serra (e por isso estavam com a Dilma em primeiro lugar).

No segundo turno, no entanto, Marina não é uma opção. A escolha agora é Serra ou Dilma e, na cabeça dessa parcela religiosa, nenhum dos dois oferece certezas de que vai brecar o aborto. Então essa questão, aborto, cai por terra. É, na visão deles, uma escolha pelo "menos pior". Os votos dilmistas tendem a voltar pra Dilma sem muito esforço.

Marina
Agora vamos ver por que o apoio da Marina também NÃO É importante para o segundo turno.

Ora, a história de Marina no PV é muito recente. E o PV não é um partido que tem, nacionalmente, 20 milhões de votos. Basta ver a pouca votação que tiveram os deputados, senadores e governadores do PV. A grande "onda verde" alardeada pela imprensa se deu mais pelas pessoas assustadas pelos boatos e como uma forma de protesto à polarização do debate.

Ou seja, não são votos "da Marina". Não foram atraídos pelo charme e graça da candidata do PV e, principalmente, não dão a mínima pro apoio dela. Os verdes do Nordeste já estão com Dilma; os de SP e do Rio, com Serra; e por aí vai, regionalmente, cada um seguindo suas convicções. Por isso até que a Marina, que não é boba nem nada, deve acabar optando por permanecer oficialmente neutra no segundo turno (ainda que tudo leve a crer que, por uma questão de coerência política, no escurinho da urna ela acabe indo de Dilma).

No fundo, no fundo, sabemos para QUAL projeto Marina torce... =D

 
E outra: Se os "verdes" quizessem realmente que Serra ganhasse, teriam todos votado nele - e ele teria ganhado.

No entanto, Serra teve menos votos que a soma das abstenções, brancos e nulos (33 milhões x 34 milhões). A onda verde foi pouco maior que metade dessa onda branca de quem simplesmente não quis ou não pôde votar. Só as abstenções são maiores que os votos da Marina (20 milhões x 19 e pouco).

Ou seja, não só os votos da Marina que estão em jogo, mas esses 20 milhões que não votaram (34 milhões, se somarmos os que votaram em branco ou nulo).

Dilma precisa conquistar 5 milhões de votos para ser eleita. E muitos desses que não votaram podem ser dilmistas. Que agora estão com a mão na cabeça, "Putz, por que eu não fui votar!" A reconquista de parte desses votos já é suficiente para Dilma levar a eleição.

"Putz, por que não fui votar na Dilma??"
Você tem mais uma chance...

O que eu faria se estivesse na campanha da Dilma:

  1. Daria mais divulgação à plataforma Verde do governo Lula - que será seguida pela presidente Dilma e pode ser encontrada em detalhes no resultado da última Conferência Nacional de Meio Ambiente. Uma plataforma que tem tudo pra agradar os eleitores da Marina que estão realmente preocupados com o meio ambiente. Tá tudo lá. O texto, inclusivo, é ASSINADO pela Marina - que ainda era ministra na época. quer compromisso maior que Dilma encampar as propostas de uma Conferência capitaneada pela candidata do PV?
  2. Esqueceria o tema aborto. Não é uma discussão a ser feita em 20 dias. E não vai influenciar em nada, como apontei acima. Falar sobre isso só gera mais ruído na imprensa (e esse é o jogo do PiG).
  3. Faria umas peças de campanha voltadas aos dilmistas que não votaram. No estilo, "PRecismos do voto de TODOS nessemomento. Se você vota Dilma, não deixe de votar." Se, de cada 6 que não votaram, UM resolver votar na Dilma, ela leva.
Enfim, dilma ainda é franca favorita, claro. Só precisa tomar cuidado pra não tropeçar.

 
Mais sobre isso - e outras análises sobre os votos de Marina - vc pode ler também no (ótimo) blog do Rodrigo Vianna (ex-repórter da Globo que se voltou contra o PiG), aqui ("Voto não foi ecológico nem evangélico") e aqui (“Votos de Marina vão se dispersar”).
    

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