segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Carta à Danuza Leão

  
  
Cara Danuza,
  
Sei que estamos em campos e espectros políticos diferentes. Tudo bem. Não, não a conheço pessoalmente, só assumo isso pelo que escreve. Como sua posição contrária às cotas, por exemplo. Vemos o mundo de maneira diferente.
  
No entanto, não posso deixar passar em branco seu artigo "Como se tornar uma drag queen", reproduzido pela FOLHA e por outras agências (como a Agência de Notícias de Aids: http://www.agenciaaids.com.br/site/noticia.asp?id=14044). 
  
Duas coisas saltam aos olhos:
  
1) Você não procurou conhecer melhor o projeto da escola (teria entrado em nosso site, www.e-jovem.com?) antes de criticá-lo. Uma pena. Muitos se deixam levar pelas manchetes e cometem os mesmos erros que você cometeu, de confundir um espaço de agregar com um de segregar. Sugiro a leitura do artigo "Uma escola gay para todos", disponível em http://e-jovem.com/news.htm#todos
  
2) E, mais sério: Você menospreza a Cultura LGBT. Quer dizer que a atividade drag só pode ser romanticamente amadora? "Essa história de dar aulas para ensinar como se tornar uma drag-queen chega a ser ridícula; a vocação vem do berço e não precisa de professor para ensinar. Mesmo nascendo e crescendo numa fazenda no interior do Acre, uma drag, desde sua mais tenra infância, sabe se "montar" como ninguém. Ela pega um pano, amarra na cintura, de umas frutinhas faz um colar, passa colorau na boca (...) e na falta de um sapato alto, anda na ponta dos pés; é com ela mesmo, e é preciso ser muito ignorante para pensar que para ser drag é preciso aprender." - palavras suas.
  
Vocação para cuidar dos outros também vem do berço, mas ninguém deixa de estudar anos de medicina ou enfermagem para fazer isso MELHOR.
  
O que vc escreveu acontece, claro. Nesse caminho, a futura dragzinha apanha do pai, é estuprada pelos tios e impedida de usar o banheiro da escola pelos "coleguinhas". As que insistem, comem o pão que o diabo amassou, sendo exploradas por tudo e por todos, em busca de seu lugar ao sol. Como alguém pode ser contra a criação de um espaço onde esse jovem não só será ACEITO, como receberá as técnicas para ser uma drag MELHOR (dança, canto, técnicas de dublagem, teatro, maquiagem, figurino, customização de roupas, mixagem de músicas, produção de espetáculos)?
  
Enfim, não espero resposta, Danuza. Só queria, como disse, desabafar. Para não deixar passar em branco.
  
Um abraço,
  
Deco Ribeiro, diretor
ESCOLA JOVEM LGBT
  

2 comentários:

O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

DECO,
Não quero ser , também, preconceituoso, mas serei... risos: Já reparou que, quando determinados heterossexuais resolvem falar de gays ou de LGBT, sempre demonstram ignorância, total desconhecimento e, ainda, arrogância. Infelizmente...
como a cultura homossexual é a aceita a padronizada e a imposta, não conseguem entender nada do que fuja dela ou a transgrida saudavelmente.
Triste é ver o espaço que essas pessoas "famosas" ( famosa por que? Danusa só soube ser modelo e dondoca na vida, mais nada...) ocupam na mídia e retratam o pensar das donas de casa e das bibinhas de baixa estima íntima... enfim, você deu uma excelente resposta...
Ricardo Aguieiras
aguieiras2002@yahoo.com.br

bianca disse...

Pô legal o espaço, mesmo não sendo com nista, nem gostando da ideologia, sou historiador e estudo a cultura lgbt, principalmente as drags, que foram alvo do meu projeto de conclusão de curso - primeiro na minha universidade - espero que aqui possamos discutir sobre o universo LGBT. Abraços Deco

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